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 Fonte: O Popular/Especiais - Goiânia - Go.

Ciência mais rica e o mundo mais seguro

Paulo José

Passados dez anos do acidente com o césio-137, duas conseqüências foram consumadas: de um lado, a tragédia, cujas vítimas sofrem ainda hoje; e, de outro, o desenvolvimento científico-tecnológico, que deu ao Brasil, mesmo que por vias tortas, um novo status na área nuclear frente ao mundo. Se houve perdas irreparáveis, houve também conquistas importantes, particularmente na medicina, na segurança pública e nas atividades de intervenção em caso de novos acidentes.

Para os cientistas, o episódio de Goiânia foi uma oportunidade de testar na prática o que se sabia na teoria. Foi também um momento único de aprender novos conhecimentos e de adquirir uma experiência que continua inédita e, possivelmente, não terá paralelos. "O acidente nos tornou um ponto de referência mundial", afirma o físico Alfredo Tranjan, da Comissão Nacional de Energia Nuclear.

Hoje, diz ele, não é possível no planeta falar de radiação e de intervenção em acidentes sem incluir o know-how acumulado pelo Brasil, em função da tragédia goianiense. A peculiaridade está no fato de que, pela primeira vez na história, não apenas a radiação mas também o elemento radioativo se espalhou em uma área urbana, densamente povoada. "O episódio respondeu à grande parte das dúvidas que a ciência tinha em relação às conseqüências do césio-137 para as pessoas e o meio ambiente", ressalta Tranjan.

Daquele setembro de 1987 até hoje, cientistas brasileiros e estrangeiros não pararam mais suas investigações, transformando Goiânia em um verdadeiro laboratório. Dos primeiros atendimentos às vítimas à definição de novas políticas para a área nuclear, passando pela instituição de planos emergenciais mais aperfeiçoados, nada tem ficado de fora. O resultado é que o acidente já rendeu mais de uma centena de pesquisas científicas, sobretudo no Brasil, no Canadá e no Japão.

Entre os assuntos estudados incluem-se, por exemplo, o monitoramento genético das vítimas, a avaliação de mutações em cromossomos, a fabricação de embalagens para lixo nuclear e as técnicas de descontaminação de objetos e pessoas. Na área técnica, dezenas de trabalhos tratam de aspectos como depósitos de rejeitos e estratégias de segurança. Como as conseqüências do césio-137 ao longo do tempo ainda são desconhecidas, parte destas pesquisas vai prosseguir.

No final de outubro, pelo menos 20 delas serão apresentadas na conferência internacional sobre o acidente, que acontecerá no Centro de Cultura e Convenções de Goiânia. Além da experiência com outras tragédias nucleares - como a de Chernobyl, na Ucrânia -, o evento vai mostrar que, apesar de tudo, o episódio da capital goiana tem tornado a ciência mais rica e o mundo, mais seguro.

Respostas para incógnitas

Quando a pequena esfera de césio-137 foi liberada de sua cápsula de proteção a marretadas, há dez anos, o mundo estava diante de um acontecimento sem precedentes. Pela primeira vez, pessoas haviam se contaminado diretamente com um elemento radioativo, chegando inclusive a ingeri-lo, como foi o caso da menina Leide das Neves. Para a medicina, a situação era uma incógnita, mas que precisava de respostas urgentes.

Por isso, à época, além de utilizar o que havia ao alcance, as equipes de saúde foram obrigadas a testar na prática recursos até então inéditos. "Aprendemos muito com o acidente", diz o médico Alexandre de Oliveira, especialista em medicina das radiações e chefe da Assessoria de Saúde e Segurança das Indústrias Nucleares Brasileiras, órgão ligado à Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN).

Segundo ele, o acidente de Goiânia mostrou à medicina uma série de episódios novos que ainda não tinham sido vivenciados em nenhuma parte do planeta. O primeiro deles foi o fato da contaminação ter sido pública, o que representou, no primeiro momento, uma situação emergencial com uma quantidade de contaminados desconhecida. A pergunta era: quantas pessoas vão precisar ser atendidas?

Manipulação

O segundo episódio, cita Oliveira, foi a inusitada situação das pessoas que, não sabendo o que era radiação nem o que o césio poderia causar, manipularam até por dias o elemento químico. As conseqüências disso permitiram aos especialistas identificar os efeitos causados ao organismo humano por uma grande contaminação interna, quando desprovida de qualquer proteção. Ao mesmo tempo, pela primeira vez, eles puderam acompanhar de perto lesões provocadas por radioatividade e, assim, tiveram a oportunidade de desenvolver técnicas de tratamento e de acompanhamento das vítimas.

Entre estas, uma das principais foi a utilização do medicamento azul-da-Prússia, com o objetivo de reduzir a contaminação. Foi sua primeira utilização clínica no mundo, o que, para Oliveira, revelou que o tratamento de radioacidentados é possível. "Usamos vários quilos em 50 pacientes por seis meses", informa. As conclusões tiradas disso, afirma ele, são úteis hoje para qualquer país.

Outra experiência inédita descoberta com o acidente de Goiânia foi a utilização de exercícios físicos e de ingestão de líquidos para eliminar o césio através do suor. Mesmo simples, a técnica deu resultados e tornou-se literatura na medicina das radiações. Para a oncologista Maria Paula Curado, além destes exemplos, houve várias outras conquistas, como a utilização de novos medicamentos para a recuperação da medula dos contaminados e o desenvolvimento de novas abordagens psicológicas ajustadas para este tipo de situação. De qualquer modo, ela acredita que a medicina na área poderia ter crescido mais. "Aconteceram realmente muito avanços, mas não da forma como esperávamos", afirma.

Nada melhorou em 10 anos

Luiz Pinguelli Rosa

A tragédia do césio repercutiu não só no País como no mundo inteiro. Mas seu pior aspecto foi para as vítimas, para as pessoas que sofreram as conseqüências, que, inadvertidamente, tiveram contato com a bomba de césio abandonada de maneira irresponsável pelos proprietários de um instituto de radioterapia cuja função maior tinha de se preservar a saúde das pessoas e não disseminar doenças.

A bomba de césio ou radioisótopo, com nível de radioatividade bastante elevado, é usada para tratamento médico. Totalmente lacrado dentro de um invólucro metálico, aberto por um pequeno orifício, o césio deve ser utilizado num tempo controlado, dirigido contra áreas bem específicas do corpo, em geral quando há tumores graves no paciente. Esta bomba, deixada dentro de um prédio abandonado, foi pega por catadores de ferro-velho que levaram o objeto para casa e distribuíram seu conteúdo, uma substância pulverizável e brilhante, entre parentes e amigos mais chegados.

Os números da tragédia são conhecidos. Todos sabemos que adultos e uma criança morreram e os sobreviventes até hoje lutam contra as seqüelas deixadas pelo césio. Todos se lembram, como exceção de políticos, ex-estadistas autoritários a serviço dos militares, hoje liberais a serviço das grandes empresas, que se omitem com relação a sorte dos desafortunados de nossa sociedade. Dado o alarme pelos primeiros doentes que procuraram o socorro médico, as autoridades levaram um susto. Não se sabia inicialmente como enfrentar o problema nem como atender os doentes, inicialmente nem identificados como atingidos por altas doses de radioatividade. Também não se sabia como lidar com o problema da contaminação da área da cidade onde a bomba foi aberta e o césio espalhado.

Deve-se reconhecer que a Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), ou melhor, os técnicos da comissão fizeram o melhor naquelas condições. Deslocaram-se para a área, socorros médicos foram providenciados, os doentes mais graves foram transportados para um hospital especializado da Marinha, no Rio de Janeiro, com condição de atendê-los, pois até eles se tornavam também fontes de emissão radioativa. O mais difícil foi a descontaminação, o isolamento da área, o rastreamento do césio e a verificação de um grande contingente de pessoas atingidas que foram examinadas. Alguns foram contaminados superficialmente, outros mais gravemente, pois tinham ingerido o contaminante, o que exigia o uso de drogas para ajudar o metabolismo a eliminar o césio do corpo.

Após a localização de um grande número de pessoas expostas ao risco, que tinham de ser continuadamente examinadas, foi criada então a Fundação Leide das Neves, que montou um hospital para acompanhá-las. O contingente delimitado de algumas centenas de pessoas passou a ter o direito de ser atendido. Os doentes mais graves ganharam o direito de uma cesta básica, de uma ajuda do governo e de um acompanhamento médico muito próximo. Também os médicos da Fundação Leide das Neves, enfermeiros, psicólogos, fizeram o melhor que podiam dentro dos limites do que dispunham. Houve reação da população medrosa de contaminar-se com aqueles já atingidos; houve um boicote de produtos do Estado com medo de estarem contaminados pelo césio. Muitas pessoas tiveram seqüelas da contaminação e os atingidos pagaram um preço alto. O mundo inteiro prestou atenção; tornou-se Goiânia objeto de estudo de um acidente radiológico.

O mundo assistiu um ano antes o acidente ocorrido em Chernobyl, na Ucrânia, ex-União Soviética, que também causou muitas mortes principalmente de técnicos e equipes de socorro. Já tinha antes ocorrido o acidente Tri may island, na Pensilvânia, nos Estados Unidos, que não chegou às últimas conseqüências porque o material radioativo que foi liberado de dentro do reator ficou confinado no prédio de contenção. Mas Goiânia passou à história como um caso chocante em que pessoas foram atingidas, não por um dispositivo tecnologicamente complicado, como um reator nuclear que falhou, mas pelo descaso de quem simplesmente abandonou uma bomba de césio num local de acesso público.

Goiânia não foi só um acidente radiológico, foi também um acidente social que expôs as mazelas do nosso País, a irresponsabilidade das elites, a incompetência dos governos. Um ciclo perverso que vem piorando, pois o setor público, que devia ser incumbido de determinadas tarefas, vem sendo desmoralizado pelos seus próprios dirigentes políticos, que lhe retira recursos e generosamente os distribuem para bancos e grandes empresas multinacionais que, por sua vez, têm seus encargos fiscais continuamente reduzidos enquanto os economistas do governo que praticam esta política pulam de galho em galho de cargos públicos para funções regiamente remuneradas nas empresas por eles privilegiadas.

É frustrante pensar que a qualquer momento podemos ter notícia de um acidente semelhante ao ocorrido em Goiânia. São muitas ainda as bombas de césio e de cobalto sem controle pelo território do País. Infelizmente nada melhorou no que diz respeito a este controle nos últimos dez anos.

Luiz Pinguelli Rosa, físico, é diretor do Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa em Engenharia (Coppe/UFRJ). Era membro do conselho da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência na época do acidente radioativo de Goiânia

Centenas de vítimas e 4 punidos pela tragédia

Rosane Rodrigues da Cunha

Uma semana após a descoberta do acidente com o césio 137, o então diretor da Polícia Federal, Romeu Tuma, dizia em uma entrevista que era preciso encontrar os responsáveis pela tragédia. As investigações foram deflagradas e renderam muitas audiências, processos, julgamentos e recursos. Em 11 de abril de 1996, quase nove anos depois do desastre radiológico, que provocou quatro mortes, atingiu dezenas de pessoas e mexeu com toda a vida da cidade, foram presos os quatro culpados apontados pela justiça. Os médicos Carlos Figueiredo Bezerril, Criseide Castro Dourado e Orlando Alves Teixeira e o físico em Medicina, Flamarion Barbosa Goulart, receberam como condenação a pena de três anos e dois meses de prisão em regime aberto.

Os radioterapeutas eram sócios no Instituto Goiano de Radioterapia (IGR), de cujos escombros foi retirada a peça contendo o césio 137. Goulart era empregado do IGR. Um outro sócio do instituto, Amaurílio Monteiro de Oliveira, ficou livre da prisão, pois foi decretada a prescrição da punibilidade em relação a lesões corporais culposas das quais era acusado. Nenhuma punição foi aplicada à Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), ao Instituto de Previdência e Assistência aos Servidores de Goiás (Ipasgo) ou ao Governo do Estado, que chegaram a ser apontados como coniventes no abandono do equipamento de radioterapia.

Por cerca de seis meses, os três médicos e o físico foram obrigados a dormir na Casa do Albergado Ministro Guimarães Natal, no Jardim Europa. Durante o dia, eles ficavam em liberdade. No dia 30 de setembro do ano passado, foram beneficiados com a substituição da pena de reclusão pela prestação de serviços à comunidade. Com a substituição, os quatro condenados perdem o direito ao livramento condicional, só assegurado, segundo o juiz da 4ª Vara de Execuções Penais, Wilton Müller Salomão, após o cumprimento de um terço de pena privativa da liberdade. Os médicos e o físico devem continuar prestando serviços gratuitamente à sociedade, em suas áreas de atuação, durante oito horas semanais até o cumprimento da pena.

Atualmente, Orlando Teixeira, que, de acordo com colegas, deixou a Medicina e é empresário do ramo de transportes, presta serviços todas as segundas e quartas-feiras, a partir das 20 horas, na Casa do Albergado. Ali, o ex-radioterapeuta atua como clínico geral. Criseide, Bezerril e o físico Goulart cumprem suas penas no Hospital Araújo Jorge, em Goiânia, e na unidade de tratamento oncológico de Anápolis. O cumprimento da pena é fiscalizado pelo Setor Interdisciplinar Penal da 4ª Vara.

Centenas de vítimas e 4 punidos pela tragédia

Não falar sobre a condenação foi a forma encontrada por Carlos Figueiredo Bezerril, Criseide Castro Dourado, Orlando Alves Teixeira e Flamarion Barbosa Goulart para tentar esquecer ou pelo menos para amenizar o impacto do acidente com o césio 137 em suas vidas. O pacto de silêncio é alimentado pela mágoa dos quatro com a imprensa, com a justiça, com todos que, segundo eles, previamente os apontaram como culpados pelo desastre.

"Fomos usados como bodes expiatórios", disse Bezerril na semana passada, repetindo a opinião que sustenta há uma década. Aos 53 anos, 28 deles dedicados à Medicina, o radioterapeuta limita-se a afirmar que teve sua vida virada de cabeça para baixo pela condenação, mas que não perdeu o respeito da sociedade e de seus pacientes. O físico Goulart, 40, evita recordar o drama que vivenciou após a tragédia com o césio 137. "É muito doído".

Revolta

O período em que dormiu na Casa do Albergado, segundo ele, foi o pior. "Fui afastado de minha família e obrigado a passar as noites em um local onde nunca havia pensado em pisar", declara Goulart, que não esconde sua revolta com a condenação. Para ele, quatro pessoas foram responsabilizadas, enquanto muitos se beneficiaram, se beneficiam e ainda tentam se beneficiar com o acidente.

"Há pessoas que celebram os dez anos da tragédia como se houvesse o que comemorar", diz Goulart. Procurado na Casa do Albergado, Teixeira, 47, recusou-se a dar entrevista sobre o assunto. Segundo uma funcionária da unidade, ele atende a cerca de dez pacientes por semana e tem um bom relacionamento com todos, desde a época em que cumpriu pena no local. Por exatamente 20 vezes, a reportagem tentou ouvir Criseide Dourado, 50, no Hospital Araújo Jorge, mas a médica não foi localizada e nem retornou as ligações.

Muitas perguntas sem respostas

Rosane Rodrigues da Cunha

Quando aconteceu o acidente com o césio 137, a médica Maria Paula Curado já atuava há dez anos na área de oncologia, voltada para o tratamento de câncer, e percebeu que poderia colaborar com o atendimento prestado às vítimas. Desafiando as críticas de sua família e de amigos, inclusive de também médicos, que temiam uma possível contaminação, ela apresentou-se como voluntária e por cerca de três anos atuou gratuitamente na assistência aos radioacidentados. "Fiz o que era certo", diz. A seguir, Maria Paula, 44 anos, analisa um pouco do trabalho desenvolvido ao longo dessa última década e lamenta que muitas perguntas sobre os efeitos do acidente ainda estejam sem resposta.

Como foi seu primeiro contato com as vítimas?
Fui como voluntária. Já havia uma equipe de profissionais de saúde monitorando as vítimas. Mas, como a médio e longo prazos havia riscos do aparecimento de câncer entre os radioacidentados, senti que tinha a obrigação, como oncologista, de participar dessa equipe. Trabalhei por quase três anos sem remuneração.

Em que estado clínico, a senhora encontrou esses pacientes?
Eles estavam muito mal. Muito confusos, inseguros, cheios de lesões, de problemas, com dificuldades de entender o que estava acontecendo, não entendiam a dimensão do acidente. Além da dor, eles se queixavam do isolamento.

E eles eliminaram todo o césio 137 de seus organismos?
A vida média do elemento no corpo é de 180 dias. Depois desse período, teoricamente não existe mais nada. Segundo análises dos aparelhos dos quais dispomos para medir as doses de césio 137 no organismo das vítimas 99,9% dessa eliminação já aconteceu. Se houver aparelhos capazes de medir doses mínimas pode até ser encontrado algum sinal de contaminação. Mas não possuimos aparelhos para dosificar o que talvez permaneça no corpo das vítimas dez anos depois e esse é um dos desafios.

O que vem sendo feito para identificar a presença e os efeitos do césio nos contaminados?
Estamos fazendo pesquisas através de estudos citogenéticos. O que notamos nos primeiros oito anos pós-acidente é que as mutações que apareceram nesse período são praticamente as mesmas verificadas nos primeiros meses após a contaminação. Elas diminuíram em freqüência, mas o tipo é o mesmo.

Que mutações são essas? O que elas provocam?
São mutações genéticas, cujos efeitos ainda desconhecemos. Por exemplo, verificamos que falta uma parte de um cromossomo, mas ainda estamos pesquisando o que essa alteração pode provocar clinicamente no paciente. O grande mistério é identificar qual o dano genético provocado pela contaminação e o que essa mutação pode causar. Buscamos definir se há uma associação entre a mutação genética e, por exemplo, o aparecimento de uma doença.

Por quanto tempo eles ainda devem conviver com os efeitos da contaminação, como dores e fraqueza?
Não temos previsão. Os atingidos pela bomba de Hiroshima, até 45 anos depois tinham as mesmas queixas apresentadas logo após a contaminação.

O que os técnicos diziam às vítimas que pensavam em ter filhos, mas tinham receio quanto ao futuro e à saúde das crianças?
Aos que sofreram um baixo índice de contaminação, afirmávamos que, segundo a literatura médica, não havia risco. Mas, aos que apresentavam altas doses de contaminação recomendávamos evitar filhos. Ainda temos vítimas dessas altas doses que desejam filhos, mas não podem porque ficaram estéreis após o acidente. A radiação deixou cinco homens estéreis. Um teve esse quadro revertido naturalmente quatro anos após e agora tenta ter um filho. Dos outros quatro pacientes, somente um ainda manifesta o desejo de ser pai, mas não pode.

O nascimento de filhos de pessoas contaminadas sem qualquer sinal de contaminação indica que essas crianças estão livres dos efeitos do césio 137?
Do ponto de vista clínico sim. Mas, eu seria irresponsável se afirmasse que futuramente as crianças nada sofrerão. Elas são fruto de uma geração que foi exposta à radiação, então precisam ser acompanhadas por toda a vida.

As próximas gerações também vão necessitar desse acompanhamento?
Claro. Acho que até chegarmos à conclusão de que não há mais nenhum sinal de contaminação, toda pessoa que foi exposta à radiação deve ser acompanhada, assim como seus descendentes.

Os policiais que trabalharam no acidente e agora apresentam problemas de saúde são também vítimas do césio 137?
Não temos como provar que sim ou não. O soldado que teve câncer no cérebro trabalhava no repositório, tem uma história relacionada ao acidente. Mas, não temos como provar uma relação entre a doença e a contaminação, pois o tumoratingiu o sistema nervoso central, cujas células são muito resistentes à radiação, que atinge inicialmente o sistema hematopoético . Teoricamente, ele teria de ter primeiro uma leucemia ou um sarcoma, por exemplo. De acordo com a história natural da radiação, o câncer no cérebro não é radioinduzido. Mas, eu não posso definitivamente dizer que o tumor apresentado por ele não está relacionado à radiação.

O que seria necessário para ter uma certeza sobre essa associação?
Cientificamente não temos instrumentos para isso. Teoricamente, não há relação entre radiação e câncer no sistema nervoso. Se esse câncer foi radioinduzido, atualmente acho praticamente impossível provar. Mas, pode ser que daqui a 20 anos, alguém diga que existe essa associação.

O acidente aumentou os riscos de surgimento de câncer em Goiânia?
Fizemos um trabalho para estimar a relação entre a radiação e a incidência de câncer entre a população de Goiânia. Concluímos que o índice é muito baixo. A incidência é de menos de 1,5 casos para cada 100 mil pessoas. Mesmo entre os radioacidentados, as chances de aparecimento de câncer são pequenas.

Que balanço a senhora faz da assistência prestada às vítimas nesses dez anos?
Sem dúvidas, tivemos muitas dificuldades no início. Porque lidávamos com o desconhecido. Mas, ainda hoje, é difícil. Às vezes, olho para trás e percebo que muitas perguntas ainda estão sem respostas. Não conseguimos responder a praticamente nada. A evolução foi pequena. O que fizemos foi dar algumas respostas curtas, que não oferecem segurança às vítimas.

Por que?
Porque as pesquisas que fizemos revelaram resultados parciais. Encontramos mutações, mas não pudemos relacioná-las, por exemplo, ao aparecimento de um câncer.

Irradiador de conhecimentos

A Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN) iniciará, ainda este ano, a construção do Laboratório de Monitoração Individual, que integrará o Centro Regional de Ciências Nucleares do Centro-Oeste, em Abadia de Goiás. A previsão do coordenador do Projeto Goiânia, da CNEN, Alfredo Tranjan Filho, é de que a nova unidade esteja concluída até meados de 1998, quando será lançado outro laboratório do complexo, o de metrologia. "O objetivo da CNEN é manter o centro constantemente atualizado", diz Tranjan.

O Laboratório de Monitoração Individual destina-se a atender pessoas expostas a condições de risco com material radioativo. Tranjan observa que técnicos de raios-X, por exemplo, são monitorados periodicamente através de uma espécie de filme que trazem consigo. O laboratório estará aberto também para qualquer pessoa do público que tiver interesse em fazer a medição. Já o Laboratório de Metrologia servirá para aferir e estabelecer padrões que serão utilizados dentro das unidades de radiação. "Graças a isso, uma pessoa que se submeter a uma seção de radioterapia, por exemplo, poderá ter certeza de que a dose aplicada é a que foi recomendada pelo médico", esclarece.

O Centro Regional de Ciências Nucleares do Centro-Oeste foi inaugurado oficialmente em 5 de junho deste ano, Dia Internacional do Meio Ambiente. A 23 quilômetros da capital, o complexo é voltado para estudo, pesquisa, divulgação de informações e formação de técnicos na área nuclear. Ele já recebe uma média de 8 mil estudantes por ano, mas por enquanto está operando principalmente para o monitoramento do próprio depósito, numa área de 168 hectares que abrigará os rejeitos do acidente radiológico por aproximadamente 300 anos. "O centro está totalmente pronto para trabalhos conjuntos entre a CNEN e universidades e outros órgãos", assegura Tranjan. (Carla Borges)

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