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Acidente Radioativo Japão 30/09
Fonte: CNN - 30 de setembro, 1999 12:21 p.m. hora de Nova York (1621 GMT)
Vazamento nuclear provoca alerta no Japão
TÓQUIO (AP) -- No pior acidente nuclear de todos os tempos no Japão, um vazamento de radiação em uma usina de processamento de urânio perto de Tóquio provocou a hospitalização de três funcionários e forçou as autoridades a alertar a população local a não sair de casa.
As autoridades pediram a milhares de moradores dentro de um raio de 10 quilômetros da usina na cidade do nordeste do Japão que permaneçam em alerta em casa.
Em Tóquio, o governo enviou uma equipe de especialistas em radiação para assessorar as autoridades locais.
Hiromu Nonaka, mais categorizado porta-voz do governo, chamou o acidente de "sem precedentes".
Os níveis de radiação em volta da usina estavam 10.000 vezes mais altos do que o normal no ponto mais atingido e cerca de 10 vezes acima do normal a uma distância de dois quilômetros do acidente, disse Tatsuo Shimada, funcionário da prefeitura de Ibaraki.
Havia temores de uma possível reação nuclear continuada na usina, disse Ken Muraoka, da Agência de Ciência e Tecnologia.
A radioatividade em torno das instalações de Tokaimura, cidade a aproximadamente 110 quilômetros a nordeste de Tóquio, ainda era alta mais de 12 horas depois do acidente. Tokaimura tem uma população de cerca de 33 mil pessoas.
Empresa pede desculpa
"Um acidente de graves proporções ocorreu tendo como conseqüência um vazamento radiativo", disse Koji Kitani, presidente da JCO Co, que opera a usina, em entrevista coletiva à imprensa.
Considera-se provável que uma reação nuclear tenha ocorrido enquanto os trabalhadores estavam processando o urânio como combustível nuclear, uma tarefa altamente delicada, segundo um porta-voz da companhia.
Os três trabalhadores mais atingidos disseram que viram uma luz azul e, depois, sentiram-se mal. A reação nuclear ocorreu quando os trabalhadores acidentalmente misturaram mais urânio que o devido no tanque, ainda segundo funcionários da companhia.
Uma reação nuclear é um fenômeno perigoso que libera uma energia extremamente intensa, da mesma forma que radiação, mas geralmente acaba quando o material radiativo é gasto.
A televisão japonesa disse que é essa a primeira vez que ocorre uma reação acidental do gênero no país.
O governo determinou que uma comissão de alto nível, formada por ministros investigue o acidente. É a primeira vez que o governo forma tal comissão diante de um acidente nuclear.
O primeiro-ministro Keizo Obuchi também decidiu adiar a reunião do gabinete marcada para a sexta-feira, em função do acidente.
Acidentes em usinas atômicas japoneses têm-se tornado freqüentes, minando a confiança da população na energia nuclear, da qual o país depende consideravelmente, por não dispor de adequados recursos naturais.
Fonte: THE NEW YORK TIMES - 30/09/99
Acidente em usina japonesa expõe 35 à radiação
Usina nuclear japonesa emite radiação após acidente
Howard W. French
Tóquio - No pior acidente da atribulada história do Japão com energia nuclear, uma reação em cadeia descontrolada ocorrida em uma usina de combustível próxima a Tóquio liberou altos níveis de radiação na atmosfera na manhã desta quinta-feira (30). Trinta e cinco pessoas foram expostas -três das quais ficaram em estado grave- e 300 mil habitantes receberam ordens para permanecer dentro de suas casas. Na manhã desta sexta, a situação voltou a ficar sob controle.
Autoridades disseram que a reação foi iniciada quando funcionários da usina acidentalmente derramaram 16 quilos de urânio, ao invés dos habituais 2,5 quilos, num tanque de purificação que continha ácido nítrico.
Segundo relatos, o erro causou uma grande e rápida emissão de luz azul dentro da usina pertencente à Sumitomo Mineradora de Metal. Cientistas afirmaram que o flash de luz pode ter sido o resultado de uma reação em cadeia acelerada.
A Companhia Elétrica de Tóquio imediatamente enviou 400 quilos de borato de sódio à usina, mas as autoridades disseram que não havia meios de se aproximar do tanque para despejar o pó capaz de absorver a radiação. Quando os primeiros esforços para interromper a reação falharam, o governo ordenou aos moradores da cidade próxima de Tokaimura para não saírem às ruas. Uma escola primária, um jardim-de-infância, algumas lojas e diversas casas estão localizadas dentro da zona afetada.
Durante a maior parte desta quinta-feira, o governo procurou não dar grande destaque ao acidente, interditando um perímetro de cinco quilômetros ao redor da área e avisando os moradores para manter as janelas fechadas. Quando a noite chegou, a Companhia Ferroviária do Japão Leste, que atende a região, suspendeu o tráfego de trens nas proximidades do local. As principais estradas que servem a cidade também foram fechadas e avisos eletrônicos foram colocados nas estradas menores pedindo aos motoristas para evitar a área.
O primeiro-ministro, Keizo Obuchi, deveria divulgar os integrantes de seu novo gabinete hoje mas foi forçado a adiar o anúncio e fez um pedido de desculpas tácito pela vagarosidade com que o governo reagiu. "Nós devemos obter laudos dos cientistas, técnicos e experts" para avaliar esses acidentes, disse o primeiro-ministro a repórteres em sua residência, segundo a agência de notícias Kyodo. "Se eles demorarem para aprontar esses laudos, devemos garantir que isso jamais aconteça novamente", acrescentou.
No passado, o governo japônes reagiu a outros acidentes nucleares com lentidão semelhante e divulgando informações que frequentemente enganavam a população. Comentaristas japoneses já estão prevendo uma reação extremamente negativa da opinião pública contra a indústria nuclear e talvez também contra um governo que está profundamente embaraçado.
A confusa resposta à emergência foi acompanhada por uma igualmente confusa reação política, com agências governamentais rivais alternadamente tentando debelar as preocupações com o vasto programa nuclear japonês ou pedindo uma revisão ampla dos mesmos.
Na manhã de sexta-feira, o chefe da Agência de Energia e Recursos Naturais do governo, Hirobumi Kawano, ainda descartava a possibilidade de que algo "crítico", uma reação fora de controle, pudesse acontecer em uma usina nuclear do país e informou aos repórteres, segundo a agência Kyodo, que não tinha a intenção de instruir as companhias energéticas a reexaminar suas medidas de segurança.
Um alto funcionário do Ministério da Indústria e Comércio Internacional, no entanto, declarou que o acidente era sério o bastante para fazer o Japão reconsiderar sua política de energia nuclear. O país mantém 51 usinas nucleares.
Autoridades pediram a ajuda de forças militares norte-americanas estacionadas no Japão para controlar o acidente. De acordo com a Agência de Autodefesa do Japão, o governo foi informado de que as tropas norte-americanas no país não estão equipadas para lidar com acidentes nucleares.
A rede de televisão japonesa NHK informou, na manhã desta sexta, que depois de tentativas fracassadas de esvaziar o tanque através de controles remotos, funcionários quebraram canos que saíam da câmara de purificação para permitir o resfriamento. Os trabalhadores estavam tentando colocar mangueiras na área contaminada para despejar produtos químicos que absorvessem a radiação.
Numa indicação de que o acidente estava sendo controlado, a televisão japonesa disse, às 6h30 de sexta-feira (hora local), que a Agência de Ciência e Tecnologia havia informado que 14 unidades de monitoramento colocadas ao redor da usina não estavam detectando radiações.
Segundo o Instituto Japonês de Pesquisa de Energia Atômica, foram feitas medições dos níveis de radiação na usina que seriam de dez mil a vinte mil vezes maiores que os níveis normais. "É uma situação crítica que gera apreensão sobre os efeitos prolongados da radiação", disse Obuchi a uma equipe de emergência nomeada na noite de quinta-feira para controlar o acidente. "Devemos priorizar a segurança dos moradores."
O chefe de gabinete de Obuchi, Hiromu Nonaka, disse quinta-feira à noite que unidades de guerra química das Forças de Autodefesa do Japão estavam sendo mandadas para o local da usina de combustível de Tokaimura, localizada 140 quilômetros a noroeste de Tóquio, mas acrescentou que o país "não tinha condições de lidar com esse tipo de acidente nuclear".
Nonaka chamou a reação em cadeia descontrolada, conhecida como "evento de criticalidade" no jargão da indústria nuclear, de "algo com que o Japão jamais tinha se deparado". Autoridades do governo estavam mantendo reuniões nesta sexta para discutir a questão.
Os informes iniciais davam conta de que apenas três funcionários haviam sido contaminados e que eles tinham sido transportados por helicóptero para um hospital especializado em doenças relacionadas com radiação nuclear que fica na região de Chiba, a leste de Tóquio. Mais tarde, foi revelado que dois dos funcionários estavam em estado grave e um integrante da equipe médica afirmou que todos os três haviam recebido "uma quantidade bastante substancial de radiacão". Um deles está em estado crítico e não recobrou a consciência.
Quando ficou aparente, nas últimas horas de ontem, que o acidente ainda não havia sido controlado, mais e mais relatos de vítimas da radiação começaram a ser divulgados. Ao amanhecer, as autoridades disseram, pelo menos 35 pessoas haviam sido contaminadas, incluindo trabalhadores de uma unidade vizinha e os paramédicos que ajudaram na evacuação dos três primeiros funcionários.
"Um acidente grave que causou vazamento radioativo aconteceu", disse Koji Kitani, presidente da JCO. "Pedimos desculpas do fundo de nossos corações." Tokaimura, cidade de cerca de 33 mil habitantes, tem mais de uma dúzia de usinas nucleares. Foi também lá que aconteceu, em 1997, o que era considerado até então o acidente nuclear mais sério. Nessa ocasião, 37 trabalhadores foram expostos à radiação depois que um incêndio em uma das usinas foi apagado de maneira inadequada, o que causou uma pequena explosão.
Sem fontes domésticas de petróleo, o Japão investiu pesadamente na tecnologia nuclear na década de 70, após os sucessivos aumentos no preço do barril de petróleo. O resultado é que o país agora é dependente de energia nuclear para produzir cerca de um terço de suas necessidades de eletricidade -um dos maiores índices entre todas as nações. O combustível produzido na usina em que aconteceu o acidente é usado em reatores nucleares instalados nas proximidades.
No entanto, essa familiaridade com energia nuclear ainda não foi suficiente para impedir que o Japão evitasse acidentes e, nos últimos anos, a segurança nuclear se tornou uma das principais questões políticas entre os eleitores.
Em julho, radiação estimada ser 11,5 mil vezes maior do que os níveis normais vazou de encanamentos defeituosos de um reator nuclear na cidade de Tsuruga, cerca de 320 quilômetros a oeste de Tóquio. Durante esse acidente, um reator de propriadade da companhia Energia Atômica Japonesa foi forçado a ser desligado depois de perder 51 toneladas de água radioativa usada na refrigeração. A usina de Tsuruga permanece fechada para consertos.
A edição de sexta-feira do jornal "Mainichi Shimbun" publica declarações iradas de integrantes da Comissão de Segurança Nuclear, um órgão governamental. "Eu sei que é difícil de acreditar, mas eu acho que não temos alternativa a não ser reconhecer que esse acidente foi crítico", disse Kenji Sumida. "Se eles tivessem feito seu trabalho como deveriam fazer, não haveria como acontecer um acidente desses", afirmou Kazuo Sato, outro membro da comissão.
"Tanto se falou da tecnologia sofisticada do Japão que supostamente torna a energia nuclear segura. O acidente prova que isso é absolutamente falso", declarou à agência Associated Press Chihiro Kamisawa, um ativista antinuclear.
Tradução: Vitor Paolozzi
Fonte: Globo-on 30/09/99
Nível de radiação em área de acidente nuclear está 15 mil vezes acima do normal
Ana Magdalena Horta
RIO, 30 (Agência O GLOBO) - Os níveis de radiação numa área de até dois quilômetros ao redor da usina nuclear de Tokaimura, no Japão, estão 15 mil vezes mais altos que o normal, segundo autoridades locais. Hoje de manhã, um acidente durante o processamento de urânio expôs 19 funcionários da usina à radiação. Dois deles estão em estado crítico. As autoridades japonesas ordenaram que as 300 mil pessoas que vivem numa área de 10 quilômetros ao redor da usina não saiam de casa, e lavem do corpo qualquer resíduo que venha a cair. O acidente está sendo classificado de crítico e pode ser o pior da história do Japão.
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